Em sua terceira edição, Festival vivencia cultura tradicional geraizeira em dias de seminários, oficinas, folias e festas

O Alto Rio Pardo, região do Geraes nortemineiro, é composto por 15 municípios. O Centro de Agricultura Alternativa (CAA/NM) atua nos territórios de Rio Pardo de Minas, Taiobeiras, Montezuma, Vargem Grande do Rio Pardo e Santo Antônio do Retiro, onde agricultores e agricultoras autodenominados geraizeiros convivem entre o Cerrado e áreas de transição para a Caatinga.

Na cidade de Taiobeiras, durante os dias 18 e 19 de novembro, a Escola da Família Agrícola Nova Esperança realizou o 3º Festival de Cultura Popular do Alto Rio Pardo, reunindo estudantes, agricultores, pesquisadores e amantes da cultura geraizeira em dias de folia e encontros.

O Festival teve início no Salão do Sindicato Rural de Taiobeiras, onde foi realizado o seminário “Sociobiodiversidade e Feiras Livres no Alto do Rio Pardo”, além de oficinas no período da tarde.

A palestra “Sociobiodiversidade: desafios e perspectivas para o campo do Alto Rio Pardo”, conduzida por Aldicir Scariot, pesquisador da Embrapa e coordenador do Projeto Bem Diverso, trouxe elementos sobre o agroextrativismo no Cerrado e sua importância para a conservação da biodiversidade do bioma. Frente a um mundo cada vez mais globalizado, de cultura homogeneizadora, o “Norte de Minas Gerais se destaca no Brasil por sua cultura e agricultura familiar próprias”, afirmou Aldicir. Apesar de pouco reconhecido e valorizado, o agroextrativismo é fonte econômica, social e cultural essencial para os modos de vida das comunidades tradicionais, já que proporciona geração de renda e manutenção de recursos naturais através da coleta de frutos do Cerrado.

Hoje, somente 3% do Cerrado está preservado por unidades de conservação de proteção integral, segundo dados do WWF Brasil. São ações os Povos do Cerrado que, apesar da invisibilidade, resistem no trabalho de proteção ao bioma, considerado a savana mais rica do planeta. “Os geraizeiros tem noção de manter o Cerrado em pé”, ressaltou Aldicir, “principalmente por causa da escassez da água, que eles estão vivenciando todo dia”.

Quem vive com pés firmes no chão do Cerrado, tirando do território sua identidade e pertencimento, sabe das alterações que a região vem sofrendo. De acordo com dados do IBAMA/MMA, houve uma redução equivalente a 48,4% do Cerrado nas últimas décadas. A taxa de desmatamento, hoje, é maior do que qualquer outro bioma brasileiro, incluso a Amazônia.

Dando sequencia à programação do Festival, Ana Paula Gomes Melo, professora do Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Minas Gerais (ICA/UFMG), apresentou palestra “As feiras livres do Alto Rio Pardo: economia popular solidária, agroecologia e cultura”. Na palestra, Ana Paula apresentou um estudo detalhado sobre as feiras livres dos municípios de Rio Pardo de Minas e Taiobeiras, modelos de comercialização e distribuição de produtos agrícolas vindos de municípios da região. Importante espaço de encontros e trocas, a feira chega a atrair mais de 6 mil consumidores em dias de maior movimento. “As políticas públicas não estão vendo a importância das feiras livres para a economia local. Por que não estão investindo mais na feira, e contribuindo com este espaço e os agricultores que o ocupam?”, questionou Ana Paula.

Segundo o estudo, a feira de Taiobeiras é um espaço “de solidariedade e troca de saberes e cultura, que se refletem na preservação da identidade da população do Alto Rio Pardo”. Realizada entre agosto de 2014 e agosto de 2015 por estudantes e professores do ICA/UFMG e da EFA Nova Esperança, a pesquisa entrevistou 200 consumidores e 30 agricultores. 62,5% dos consumidores entrevistados afirmou frequentar a feira toda semana, e 93,5% mostrou interesse em comprar produtos agroecológicos. Dos 30 feirantes entrevistados, 17 disseram sofrer dificuldades para a produção, relacionadas à falta de água no período de estiagem – seca dos rios e escassez de chuvas. Para a maioria dos feirantes, a feira corresponde a toda ou maior parte da renda familiar.

Além disto, a pesquisa concluiu que os integrantes das famílias feirantes participam de todo o processo de plantar, cuidar, colher e vender na feira – o que demonstra que o conhecimento tradicional geraizeiro é transmitido de geração para geração. “O agricultor é um guerreiro”, sustentou Ana Paula. “Com o avanço do capitalismo, ninguém acreditava que a agricultura familiar ainda pudesse existir. Mas esta pesquisa mostra que ela está aí, resistindo. Mesmo com a falta de políticas públicas, dificuldade em relação à legislação, seca e mudanças climáticas, o agricultor resiste e é feliz com seu trabalho”.

Durante a tarde, as oficinas “Mídias Digitais” e “Frutos do Cerrado: produtos bons, limpos e justos” reuniram, respectivamente, interessados no engajamento através dos meios de comunicação e na valorização dos gostos e riquezas do bioma. Andreza Andrade, consultora de comunicação do Projeto Bem Diverso, dialogou sobre as formas de construção de narrativas através das redes sociais, valorizando a comunicação como ferramenta de luta. Daniel Coelho, professor da Unimontes e membro do Movimento Slow Food Minas Gerais, e Welerson Amaro, agrônomo e representante da Cooperativa Grande Sertão, conduziram o espaço de apreciação e degustação de frutos e produtos típicos do Cerrado, fazendo do ato de comer um resgate de tradições e culturas locais. E como o brincar é também uma forma de aprender, os participantes desta oficina se divertiram criando suas próprias receitas de beiju utilizando frutos, castanhas e produtos da região.

 

No sábado (19), último dia do Festival, foi realizada a Feira de Agricultura Familiar do Alto Rio Pardo, com espaços de Troca de Sementes Crioulas e a Exposição Audiovisual do filme “O Alto Rio Pardo e seu povo”. Apresentações culturais de dança, teatro e música celebraram a noite em cores e cantos, com tradicionais festejos de Folia de Reis e Bandeira de São Francisco.

Fernanda Santos, da Escola Família Agrícola e uma das organizadoras do evento, conta que a Feira vem do desejo de dar visibilidade à agricultura familiar da região. “É um espaço onde os agricultores podem se encontrar, trocar saberes, trocar sementes, trocar alegrias”. Celebrando a cultura popular, a Feira acaba por animar identidades e resistências dos geraizeiros que lutam diariamente pela garantia de seus direitos e modos de vida. “Isso é importante”, conclui Fernanda, “porque faz a gente perceber que é do nosso lugar, e faz a gente ter mais vontade de ficar aqui e cuidar deste espaço”.

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